quinta-feira, 28 de julho de 2016

Frances Ha

O porquê de eu ser apaixonado por esse filme.

"Nadia? Eu quero esse momento especial. É o que eu quero em um relacionamento, o que pode explicar o porquê de eu estar solteira agora. É meio difícil de...

É aquela coisa quando você tá com alguém e você ama ele e ele sabe disso, e ele ama você e você sabe disso. Mas vocês tão em uma festa e conversando com outras pessoas, rindo, felizes, e você olha pro outro lado da sala e seus olhos se cruzam... Mas não porque é possessivo ou porque é sexual... mas porque aquela é a sua pessoa nessa vida. E é engraçado e triste, mas só porque essa vida vai acabar e é aquele mundo secreto que existe ali, em público, despercebido, e que ninguém mais sabe.
É como eles dizem que outras dimensões existem ao nosso redor, mas não temos a capacidade de perceber elas. É... é isso que eu quero de um relacionamento. Ou da vida, acho. Amor."

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Retratos de um dia cinza: Banho


Novamente, encontrava-se no banho. Esse seu ritual não era tão frequente quanto poderia-se esperar. Às vezes, ficava 2 ou 3 dias sem conseguir reunir forças pra levantar da cama e ir tomar banho. Quando conseguia, durava outros tantos dias na temperatura do inferno. Pensava que se o inferno fosse tão ruim mesmo, era mais provável que fosse gelado e não quente como seus longos banhos.

Enquanto se lavava, olhava as paredes de vidro e a fumaça que se transformava em gotas e as gotas que escorriam pela parede. As gotas desciam e eventualmente desapareciam, escorrendo para o ralo ou ficando lá para serem evaporadas. Enquanto escorriam, reparava no movimento e na harmonia da água que dançava no vidro.

Não podia deixar de pensar na semelhança entre esse movimento e as vidas das pessoas. O nascimento e morte de ambos são espontâneos e súbitos. Mas é durante a vida que percebemos a maior semelhança. Assim como os humanos, as gotas encontram outras no seu percurso de escorregamento. Quando se juntam, deixam de ser as mesmas. Se tornam uma nova gota, com outras moléculas que antes não estavam lá. Se se separam, não são mais as mesmas que eram antes. Mantém moléculas originais e novas moléculas que antes não estavam lá.

Talvez sejamos assim também. Pode até ser que tenhamos uma essência, mas no limite, somos uma mistura de todos os encontros que tivemos na vida. Podemos ficar juntos por uma hora, um mês ou um ano, mas nos misturamos com as pessoas que passam na nossa vida. Às vezes formamos gotas gigantes, que seguem juntas, e às vezes nos despetalamos e voltamos a ser uma única gota, escorrendo solitária. Talez nada disso faça sentido, mas afinal, não é assim a vida?

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Na defesa das LGBT, é preciso ter lado

Hoje foi votada a MP 664, que ataca o direito à pensão por morte. Essa MP, em conjunto com a MP 665, que ataca o seguro-desemprego, faz parte da política do PT para resolver a crise econômica: ajustar das trabalhadoras e trabalhadores, e não dos bancos e grandes empresários.

Estava curioso pra ver como a deputada Erika Kokay, do PT, havia votado. Afinal, todo o PT menos 1 deputado votou a favor, e a deputada tem um histórico de defesa das LGBT no Congresso, ao lado de Jean Wyllys. Nas votações mais importantes do ano, que representam um grave ataque aos direitos da classe trabalhadora, afetando principalmente as LGBTs, mulheres e população negra, Erika Kokay simplesmente não apareceu pra votar. Não teve coragem de expor sua posição para o conjunto da população, a quem deve esclarecimentos.

Esse é o principal problema quando se defende a pauta LGBT isolada do restante da sociedade. Pode-se fazer o discurso mais inflamado, bonito e emocionante sobre como a LGBTfobia afeta nossas vidas e deve acabar. Mas não é possível enfrentamento real a essa opressão, se não se debate essa pauta a partir da perspectiva da LGBT trabalhadora, que sofre com a exploração do trabalho e a opressão de sexualidade e gênero. E dessa perspectiva, é inadmissível apoiar ou ser conivente com um projeto que retira direitos de toda a classe trabalhadora.

De minha parte, nunca tive ilusões com a deputada, mesmo achando que em alguns projetos pontuais ela cumpre um papel importante, mas esse caso evidencia nossas diferenças de concepção do movimento LGBT. Acredito que a única forma de construirmos uma sociedade livre da opressão LGBTfóbica, é construindo uma sociedade livre de toda a exploração e opressão e, para isso, é preciso ter um lado claro.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Crônicas de um dia cinza

Encontrei uma pessoa do Solidariedade, o partido que o Paulinho da Força quer criar, colhendo assinaturas pro impeachment da Dilma. Perguntei pra ela:
- Quem assume a presidência se a Dilma sair?
- Ninguém assume, não! Se a gente tira ela, são convocadas novas eleições. 
Fiz cara de surpreso e ela seguiu sua coleta de assinaturas.
Nisso, conheci uma mulher que estava sentada perto de mim e que havia assinado, e falei que na verdade quem assumia era o Temer, não tinha nada de novas eleições. Falamos um pouco sobre isso, mas pra ela isso não importava tanto. Logo começamos a conversar sobre arte (ela pintava telas), sobre a vida e sobre o amor. E se debruçou em me passar conselhos que claramente vinham de experiências que passara, como não podia deixar de ser. Não se aplicavam a mim, mas ela os libertava com tanto gosto que deixei-a falando só pelo prazer de vê-la feliz. Nos despedimos e seguimos cada um seu caminho.
Essa conversa não deixou o dia menos cinza ou meu "muss es sein" ("tem que ser assim?"), como já diria Milan Kundera, menos angustiante, mas me fez passar o tempo, o que em si só já é um suspiro agradável. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

No segundo turno, estamos mal

Estou escrevendo um texto com algumas contribuições sobre as eleições de 2014 em que me posiciono sobre os mais diversos temas, incluindo o segundo turno. Vou postar ele aqui em breve, mas vi uma notícia que não posso deixar de responder.

Luiz Mott, fundador do GGB (Grupo Gay da Bahia) decidiu mandar uma carta apoiando a candidatura do Aécio, louvando seu compromisso com as LGBT e enviando algumas reivindicações a ele, em nome do movimento LGBT. Respeito o histórico dele no movimento e sua posição, todos tem o direito de apoiar o candidato que quiserem, ou não apoiar nenhum. Mas não dá pra usar a pauta LGBT para justificar esse apoio, e muito menos dar a entender que quem o faz é o movimento LGBT.

Suas justificativas para o apoio são muito fracas. Fala de uma declaração que ele deu há 7 anos atrás de que não se opõe à “união civil” (termo que não existe) entre homossexuais e algumas medidas pontuais. Qualquer que seja o compromisso que Aécio diga ter e exponha no seu programa de governo (que é abstrato e não apresenta propostas) quanto às LGBT, não passa de promessas vazias. Isso fica claro não só pelo fato de ele não tocar no tema quando em entrevistas e debates, mas também por suas alianças. Sua coligação é com o DEM, e outros partidos homofóbicos e transfóbicos, e no segundo turno fica pior. Agora, ele recebe apoio de Everaldo, representante do fundamentalismo, e de Marina, que desfez seus compromissos com as LGBT depois de 4 tweets do Malafaia. Com uma base dessas, que defesa poderia fazer das LGBT?

Também a Dilma não só não fez avanços na pauta LGBT, como não tem condições de fazer se for reeleita, pois mais do que nunca está presa à sua base de apoio que também tem diversos partidos que o impedem como o PP. Vetou o Kit Escola Sem Homofobia e justificou afirmando que não faz “propaganda de opção sexual”. Durante a campanha de 2014, afirmou ser a favor da criminalização da homofobia e transfobia, mas se recusou a colocar isso por escrito.

A realidade é que esse segundo turno não tem opção para quem é LGBT. Pode-se escolher o voto baseado em qualquer critério: alternância de poder, economia, políticas sociais, afinidade. Mas dizer que algum dos dois candidatos tem compromisso com a nossa pauta é impossível!

Postado originalmente no Portal #MeRepresenta

sábado, 20 de setembro de 2014

Ontem meu celular foi roubado. O cara passou de bicicleta e tirou o celular da minha mão enquanto eu estava digitando nele. Não tinha nenhum policial em volta vendo isso, mas depois fiquei pensando que isso foi a melhor coisa. Tenho mais medo do que a polícia poderia fazer com ele do que de ficar sem meu celular ou alguma outra coisa de valor. Não quero mais ambulantes, pobres, negros, assassinados pela PM!

sábado, 13 de setembro de 2014

Polícia pra quem?

Me dá nojo ver a polícia fazendo de tudo para falar que a morte de João Antônio Donati não foi por homofobia. E não é a primeira vez. Todas as mortes por homofobia e transfobia que acontecem eles tentam nos convencer de que nós somos loucos e nada disso existe. Foi a mesma coisa com o Kaique, no começo do ano. Mesmo quando estava claro que ele foi assassinado por homofobia, decidiram falar que foi suicídio.

Esse é o papel que a polícia cumpre hoje. Quando não é ela mesma quem mata, tenta encobrir as mortes e discrimina quem tenta denunciar um crime de ódio. Eu tenho até medo dessa polícia, imagina o que ela diria se eu ou você fôssemos assassinados hoje por causa da nossa orientação sexual ou identidade de gênero?

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Acabei de ser demitido da escola onde trabalhava há 6 meses. O motivo oficial é "minha relação com os alunos". Sendo que minha única relação com os alunos era de monitoria de matemática.

O motivo real da minha demissão é político. A lógica deles é bem simples: tem alunos que estão gostando do PSOL, tem monitores que são do PSOL, vamos demitir todos. Independemente de eles conversarem sobre o partido ou não, já que nunca debati sobre o partido com nenhum aluno.

Não foi a primeira vez. No começo do semestre, proibiram os monitores de falarem sobre o conflito Israel e Palestina. Se perguntados, deveríamos responder que não tínhamos opinião sobre isso. É muita hipocrisia. Uma escola que diz incentivar o desenvolvimento de senso crítico nos alunos, desde que esse senso crítico seja bom pra escola. Só fico com pena dos alunos, que são obrigados a perderem monitores que gostam porque a coordenação da escola discorda dos posicionamentos deles.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A vida tem a fluidez de um rio. Aquilo que aconteceu ontem, hoje já foi arrastado para frente, e o que acontece hoje, amanhã já não enxergaremos mais. Por isso, um poema tem aquela doce efemeridade que só as coisas humanas têm. Não deixa ele de ter seus frutos, ou perde seu significado, mas não significa hoje aquilo que significou ontem.
Finalmente vou deixar aqui um poema atual, escrito no último domingo. Um haikai que só aparece naqueles momentos de maior tensão emocional e que tenta, num curto espaço, representar toda a complexidade das emoções e da vida.

               Dia cinza
Um risco no céu
      Relâmpago no chão